História

 

Era uma vez...

A história começa à margem direita do rio Escalda, na Bélgica, às portas da cidade de Tournai, em 1231. Duas mulheres colocam seus bens a serviço dos pobres e abrem uma hospedaria. Sem tardar elas são seis e vivem segundo a regra de Santo Agostinho.

Nenhuma personalidade marcante, nenhum rosto com a auréola de santidade marca esta fundação. Somente a fé e o serviço simples desse punhado de mulheres para acolher os passantes ao cair da noite.

780 anos passaram-se, dia após dia, através dos movimentos da história. Logo serão 800 anos de fidelidade e de criatividade à escuta dos apelos do mundo e do Espírito. Do hospital ao mosteiro, do mosteiro à vida apostólica... Hoje, congregação internacional vivendo da espiritualidade inaciana, nós nos reconhecemos provenientes desse percurso movimentado.  De geração em geração uma tradição nos carrega e nos convida a inventar o próximo passo...

A comunidade primitiva conheceu muitas crises e mutações: para seguir a aventura ou conhecer mais sobre uma das etapas, continue lendo...

 



 

Hospedaria e Hospital: do século XIII ao XVII (1231-1611)

É primeiramente uma hospedaria, um acolhimento gratuito ao cair da noite, para os passantes e viajantes : a hospedaria «  Saint Nicolas du Bruille », nome da paróquia vizinha.

Foco central da sala de recepção do Hotel St. Nicolas - encontrados através das escavações, e agora no Musée Saint-André, em Ramegnies-ChinConforme o espírito da Idade Média, a hospitalidade é ao mesmo tempo um serviço material: oferecer a quem chega abrigo e alimento, longe dos perigos da noite. Oferece também uma espiritualidade: acolher e servir o pobre como o próprio Cristo. Em volta da lareira da sala principal sobre a qual se esquenta a marmita, a vida das irmãs é ritmada pela oração comum e pelo serviço dos hóspedes.
O papa Innocente IV concede-lhes sua proteção em 1249.

A partir do final do século XIII, a hospedaria se transforma em hospital. O século das grandes peregrinações e das longas viagens dá lugar a um período de fome e epidemias. A doença atinge primeiramente os pobres que são recebidos gratuitamente na casa.

O hospital vive da caridade pública e o bispo de Cambrai limita o número de irmãs : não podem ser mais que seis, para não “comer o pão dos pobres”. Tal restrição permanecerá até o século XVII.Manuscrito da Notre-Dame, em Tournai - século XV

No século XV, o hospital recebe o nome de Santo André, provavelmente para diferenciá-lo do hospital São Nicolau que foi aberto na cidade de Tournai. Sob o impulso da priora Marie de Corbehen, a Regra agostiniana primitiva é revista, traduzida em francês e adaptada à vida da comunidade. O hospital está em pleno desenvolvimento.

O século XVI é um tempo de provações. A cidade está tomada e ocupada pelas tropas de Henrique VIII, rei da Inglaterra. Alguns anos mais tarde a comunidade é devastada pela peste. No entanto, nos Países Baixos, os Regra 1460 (manuscrito em Valenciennes)poderes públicos organizam a assistência e, em Tournai, dois grandes hospitais acolhem os doentes. O hospital Santo André põe-se a recolher os mais abandonados, pessoas acamadas. Este acolhimento de longa duração permite às irmãs levar uma vida mais regular. Com efeito, a maioria delas aspira a uma vida contemplativa, inteiramente consagrada à oração. Esta orientação para a vida monástica é, aliás, vivamente encorajada pelos decretos do Concílio de Trento.
Sob o priorado de Marie de La Chapelle, o hospital torna-se mosteiro, reconhecido oficialmente como tal aos 16 de setembro de 1611.

 

 

O Mosteiro: séculos XVII e XVIII (1611-1801)

Regras e Constituições revisadas pelo P. Civoré s.j. - 1644 (cópias do século XVIII - Seminário de Tournai) Monjas..
O hospital tornou-se mosteiro. As que ajudam estão enclausuradas. O ritmo de vida mudou. A clausura estrita foi instaurada. O silêncio da sala de estar aquecida e da capela substituiu a agitação da sala de doentes. A comunidade tem agora o direito de crescer: em alguns anos elas passam de 3 a 26 irmãs.
Vida austera, penitência, longas orações... mas sempre no amor fraterno tão central na Regra de Santo Agostinho..


Segredos da ciência dos santos - por P. Civoré s.j. dedicado às Irmãs de Santo André
Já inacianas…

Para adaptar a Regra a esta orientação monástica, chamam um jesuíta, o Pe. Antoine Civoré. Os jesuítas estão há pouco estabelecidos em Tournai. O Pe. Civoré, sócio do Mestre de noviços, é um homem profundamente espiritual.  Ele vai manter o espírito comunitário da Regra agostiniana e redigir para a comunidade novas Constituições. Desde então as irmãs vão praticar os Exercícios Espirituais de Santo Inácio e impregnar-se desta nova espiritualidade.


Educadoras…
No século XVIII, mesmo guardando a clausura e seu estilo de vida monástico, as irmãs se põem a acolher pensionistas no interior do mosteiro. Jovens, cada vez mais numerosas, vêm receber os rudimentos de uma instrução escolar e aperfeiçoar sua educação. Como em vários conventos da época, as monjas se fazem educadoras, enquanto a comunidade cresce : no momento da Revolução francesa, elas serão cem irmãs. 

Seraphine Hauvarlet - priora de 1745-1820

Clandestinas…

As primeiras horas da Revolução as pouparam, mas em 1796 a comunidade é expulsa, todos os seus bens são confiscados. As propriedades são vendidas como bens nacionais. As irmãs são dispersadas : muitas voltam para suas famílias ou desaparecem sem deixar sinal...
Apenas algumas atravessam a tormenta : Séraphine Hauvarlet, a priora, mantém um « ateliê de costura » na rua dos Tanneurs, da cidade de Tournai, a dois passos de seu antigo convento. A partir deste ateliê mantém contato com algumas irmãs durante cinco anos, até poderem se reagrupar.

 

 

A Comunidade Apostólica : do século XIX a nossos dias

Renascimento
Despejadas na rua em 1796, despojadas de seus bens e de seu status de religiosas, Séraphine Hauvarlet  e suas companheiras fizeram-se operárias para ganhar o pão e manter a vida comum.  
Quando enfim a situação se apaziguou, com a subida de Napoleão ao poder, elas não cessaram de se encontrar e resgataram uma parte do convento.
Mas não voltarão à vida monástica. Desde 1801 elas se põem a ensinar os pobres e, para equilibrar as finanças, aceitam também alunas mais abastadas.
Estão novamente em casa, desta vez, professoras e educadoras, buscando sempre responder aos apelos do momento.

 

Uma etapa decisiva
Constituições de Inácio de Loyola promulgadas para as Irmãs de Santo André em 14 de abril de 1857Com a morte de Séraphine Hauvarlet em 1820, a comunidade renascente ainda não recebeu o reconhecimento oficial da Igreja, mas o bispo de Tournai a toma sob sua proteção e busca nela fazer um pensionato modelo. As irmãs, por sua parte, aspiram a enraizar-se ainda mais na espiritualidade inaciana. Em 1837, onze irmãs, chamadas « Damas de Santo André » pronunciam seus votos definitivos conforme uma regra provisória de inspiração inaciana.
Serão necessários vinte anos, repletos de dificuldades, para finalmente obterem as Constituições adaptadas diretamente das de Santo Inácio.
A promulgação de suas novas Constituições, a 14 de abril de 1857, faz da Sociedade de Santo André uma congregação apostólica, de direito romano, inteiramente orientada para a missão. É o fruto de uma longa crise e a aurora de um novo elã.
 

Enviadas no mundo
As Constituições inacianas abrem as portas do mundo. Rapidamente a comunidade de Santo André é chamada a sair de Tournai e a fundar alhures : primeiramente em Flandres, depois em Bruges, Antuérpia, Inglaterra (Jersey e Londres), na Bélgica ainda (Charleroi, Bruxelas...) Em 1914 cinco irmãs embarcam para o Brasil... hoje as comunidades do Brasil constituem um terço da Congregação. Em 1932, cinco outras irmãs deixam a Europa para o Congo (RDC)... hoje as comunidades congolesas participam na reconstrução desse país. De um lado e do outro do Atlântico as irmãs abriram escolas, tornaram-se catequistas, educadoras, animadoras de retiros espirituais...
 

Traumas de guerra
1940 : a Casa-mãe em Tournai, berço da fundação do século XIII, atingida pelas bombas incendiárias é um monte de ruínas. As irmãs da comunidade tudo perderam, mas estão salvas. Elas vão construir, a alguns quilômetros, os atuais prédios de Ramegnies-Chin, com risco de falência financeira: serão necessárias a energia e a clarividência da nova Superiora Geral, Claire Legrand, para tirar a Congregação desta dupla provação e acolher as mudanças que se anunciam na Igreja e no mundo.
 

Maison de Leuven - 14, LeopoldstraatLouvain no Concílio Vatican II
1956 : a casa de formação se instala em Louvain, no coração da vida universitária. Debates de ideias, novas correntes teológicas animam os meios intelectuais e eclesiais desde antes da abertura do Concílio. Foi em Louvain que as irmãs descobriram o movimento ecumênico e se inseriram na linha de um ecumenismo espiritual vivido na oração e no encontro fraterno. A casa é aberta aos estudantes, aos professores, aos homens de Igreja. Convidado uma noite, o Irmão Roger, de Taizé, encontra as Irmãs de Santo André pela primeira vez. Ele lhes pede ajuda por três meses. Estamos em 1966. Elas são três a partir e passar o verão na colina da Bourgogne (França), para vender cartões postais e oferecer um prato de arroz aos peregrinos de um dia...
 

Para novos tempos, lugares novos....
Em 1972, as irmãs compram uma casa no bairro de Ameugny, a 1km de Taizé. Marie-Entrada da casa de AmeugnyTarcisius Maertens vem aí se instalar com onoviciado e as irmãs em formação. Na Bélgica, a casa de Louvain é fechada por causa da separação linguística entre a Universidade de Leuven para os neerlandófonos e a de Louvain La Neuve para os francófonos.
Quarenta anos se passaram... as Irmãs de Santo André não deixaram a colina de Taizé. Quarenta anos de colaboração com a comunidade dos Irmãos para um acolhimento cada vez mais largo, cada vez mais internacional e ecumênico.
A comunidade de Ameugny, formada por professas e por algumas jovens professas, recebe as postulantes. Atualmente é a comunidade de Lyon que acolhe o noviciado na Europa. Para aproveitar os centros universitários próximos e garantir às jovens irmãs uma sólida formação humana e teológica, as comunidades de Lyon, Ramegnies-Chin e Bruxelas acolhem as irmãs estudantes.


No Brasil...
Nossa história começa em 1914, com um convite. O bispo de São Carlos, por intermédio de um padre português de passagem por Bruxelas, lança o apelo: As cinco primeiras irmãs que chegaram ao Brasilfundar em sua diocese dois colégios  para meninas. As irmãs se põem a caminho. Desembarcam do navio em Santos e, apesar das dificuldades do início, investem-se na formação das estudantes. Rapidamente a escola em Jaboticabal se torna referência de ensino de qualidade.
As primeiras brasileiras entram na comunidade em 1921 e, aos poucos, a missão se alarga, outras fundações tornam-se possíveis no decorrer dos anos: Araraquara-SP (1916), São José do Rio Preto-SP (1920), Barretos-SP (1936), São João da Boa Vista-SP (1944), São Paulo (1945), Campinas-SP (1957), Indaiatuba-SP e Rondinha-PR (1960), Cananéia-SP (1970), bairro Fachada do primeiro colégio no Brasil - Jaboticabal, SPM'Boi Mirim-SP (1971), Curitiba-PR (1976), Nova Cajamar-SP (1977), bairro do Pari-SP (1978), bairro Santa Rosa em Jaboticabal-SP (1979), bairro da Vila Madalena-SP (1980), Samaritá-SP (1981), Parque das Bandeiras-SP (1982), Belo Horizonte-MG (1988), Alagoinhas-BA (1993), Santa Fé-SP (1994), Recife-PE (2011), Vazantes-CE (2014).
Mais de cem anos se passaram. O tempo confirmou a intuição inicial, mostrou a provisoriedade de algumas fundações, a estabilidade de outras, abriu-nos a formas de presença inesperadas.
Hoje contamos com seis comunidades no Brasil: Jaboticabal, São José do Rio Preto, São João da Boa Vista, São Paulo, Rondinha, e Recife (com uma extensão no distrito de Vazantes - Aracoiaba - CE).
 

Perspectivas
O futuro, à escuta do Espírito e das necessidades do mundo, não se programa. Ele se desenha a partir dos frutos já dados: há uns 30 anos, as mulheres que entraram na Comunidade de Santo André vêm de horizontes geográficos e eclesiais cada vez mais diversificados. Elas trazem seus talentos, seu dinamismo e suas aspirações. Com elas, o rosto de Santo André tornou-se decididamente internacional. A universalidade da missão que caracteriza as Constituições de Santo Inácio se concretiza cada vez mais na Congregação. Novas comunidades nasceram, suas atividades são múltiplas. A alegria de pertencer a um mesmo Corpo disperso para a missão, mas unido pelo laço do amor, é a força para atravessar as incertezas do caminho e para seguir em frente, na confiança.